terça-feira, 6 de outubro de 2009

Adoráveis e maquiavélicas

Por que algumas crianças não têm trava na língua? Perguntam o que querem e em qualquer situação. Suas interrogações exclamadas ruborizam os envolvidos, melindram os pais e precedem a esfarrapada justificativa de que são apenas crianças, ora, ora.

Pode até ser. Algumas crianças parecem ser mesmo inocentes, a pergunta sai naturalmente, sem grandes pretensões. Outras, mais sapecas, até sabem o alvoroço que vão causar, mas a curiosidade supera o atrevimento. Mas há também aquelas que parecem fazer pelo simples prazer de ver o circo pegar fogo. Aparentemente adoráveis, são sarcásticas, beiram o maquiavelismo.

Essas facetas podem pertencer a uma mesma criança. Como ter certeza da intenção? Difícil tarefa. Assim como nos adultos, pode ser muito tênue o momento em que termina a ingenuidade e começa a malícia.

Há alguns anos, numa roda de amigas, uma das garotas se queixava do comportamento do seu alvo ao mesmo tempo em que criava desculpas para o sumiço do cara. No meio da tagarelice, lancei a consagrada pergunta: “Hum, será que ele está mesmo a fim de você?”. O assunto já era manjado, ia gerar boas risadas entre as meninas. Que nada. Fiquei boquiaberta com a reação exagerada: a guria saiu balançando as tranças e não falou mais comigo. Nunca entendi tamanho disparate.

Outro dia, numa reunião de trabalho, um diretor discursava freneticamente sobre mudanças, novo rumos, coisa e tal. Estava entusiasmado, mas sequer conseguia dizer se o ovo vinha primeiro do que a galinha. Pensei duas, três, quatro vezes antes de abrir a boca. Não deu. Quando vi, já estava perguntando o que não devia. Dias depois, fui promovida ao mercado de trabalho. Fiquei perplexa com a reação arbitrária. Eu começava a entender a força das minhas palavras.

Ninguém quer gerar uma saia-justa gratuita, mas cá entre nós, às vezes escapa, né? Foi assim num desses cursos culturais de verão. Um monte de gente diferente, com ideias diferentes. Oba, respirar novidade! Não foi bem assim. Um dos colegas monopolizou a palavra, não dava espaço pra ninguém. Lia todas as revistas, conhecia todos os escritores, dava exemplos pra tudo. Falava até mais do que o professor. Era o tal. Era o chato.

No intervalo, o sabe-tudo promoveu uma discussão sobre o significado de algumas palavras. Eu já estava dando marcha à ré, mas fui contida. Epifania. Num estalo de lucidez, resolvi entrar com vontade na brincadeira. Ericei a pestana e depois de um sorrisinho sapeca, perguntei o que significava sobrançaria. Dessa vez, entendi bem a reação estarrecida do meu interlocutor. Fingindo não saber a resposta, o moçoilo arregalou os olhos e começou a gaguejar.

O professor, com a vasta experiência de sua cabeleira branca, ganhou ares de menino e me lançou uma piscadela marota. Com um simulado tom de indiferença, respondeu: “Soberba, meu filho. Significa soberba”.

Aluna e professor. As duas adoráveis crianças maquiavélicas se reconheceram naquele momento.

4 comentários:

  1. Adorei! parabéns, o texto tá ótimo! realmente me prendeu ;)

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  2. Que delícia estes momentos íntimos, nada inocentes, de cumplicidade! Super gostoso de ler.

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  3. AMei os textos Marguinha, Parabens mais uma vez!! Nanda ;)

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  4. Oi, querida! Li todos os textos e adorei!
    Simples, gostosos de ler..
    Parabéns, continue nesta estrada!

    Vou passar sempre por aqui!

    Qdo lançar o meu blog (será de discussões) te aviso!!!

    Grande beijo!!

    Rô e Yanick

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