domingo, 23 de maio de 2010

Um metro e sessenta e cinco de sol

As sementes chegaram pelo correio. Deslizou do envelope um pacotinho de plástico transparente com microdesenhos que antecipavam o conteúdo. Era um plástico retangular, daqueles que fazem barulho e nascem para serem arrematados com fita colorida enroscada com tesoura fina.

A surpresa estava entreaberta. Em vez da fita, um bilhete ensolarado, ainda com vestígios do papel arrancado com pressa do espiral. “Ideia: coloca uns vasos na janela e planta estes girassóis para alegrar os dias chuvosos”.

O bilhete foi colorir o mural. A ideia, inspirar os quatro cantos. Mas os vasos continuaram na loja – o plástico foi em busca da fita, as sementes partiram com ele.

Ele as distribuía aleatoriamente toda vez que a imaginação dela iluminava um possível paradeiro para a fita. O plástico girava, corria, encaixava-se entre os dedos para não cair. A garota ia, voltava, suas mãos urgentes para descobrir. Caixa de correspondência, jardim, escadas, corredor. Todo o percurso do envelope foi feito, refeito, desfeito. E a cada nova centelha, novas sementes se jogavam determinadas, sem rede de proteção.

Na manhã seguinte, a rua, antes silenciosa, hospedou burburinhos crescentes. Os passantes encantavam-se com os galhos que brotavam do quarto andar. Em compasso lento e contínuo, o verde descia pelas paredes, brincava com a grama e enroscava-se serelepe pelo portão.

Ainda sonolenta, a garota desceu as escadas sem perceber que era seguida. A cada passo, uma nova flor brotava e clareava o corredor. Pela fresta da porta fechada do edifício, a luz densa ensaiava para sair. Os girassóis do jardim acordaram em série, aguardando o primeiro giro. A fita amarela sempre esteve na maçaneta. Ela resolveu abrir.

Em tempo: o título deste conto foi inspirado em Edgard Scandurra, Ira!

segunda-feira, 29 de março de 2010

Uma carta para Luiza

A imaginação estava bem alta. Acho que por isso você não ouviu meu insistente pedido: vem logo, Luiza. Sua mãe dramatizava reprovação toda vez que eu tentava lhe convencer a apressar os ponteiros. Deixa ela vir na hora que quiser, ah sim, cada um sabe a sua hora, claro claro, e voltava a lhe chamar baixinho. Ela estava certa. Eu é que estava irrequieta pra lhe encontrar, olhar no seu olho e buscar cumplicidade.

Tenho muita coisa pra contar. Suspeito que a essa altura você já deva estar imaginando. Suas coisas estão sendo organizadas há dias. O quarto foi reformado. Está tudo arrumado, alisado, alinhado. Seu pai colocou pés voadores na sua poltrona. Sua mãe inventou caixas com fundo falso para caber todas as aventuras. Sua avó costurou uma colcha em tons lilases para colorir as fantasias.

Até um ar condicionado foi instalado pra você não estranhar a temperatura maluca que anda fazendo por aqui. Andei dormindo por lá esses dias. Deixei uma surpresa ao lado do compartimento dos sonhos.

Ali e ali perto, todos querem impressionar. Sua tia não para de pesquisar comidas saudáveis e seu tio até encomendou um carro novinho só pra você. Sua prima, nem se fala. Passou no vestibular antes mesmo de começar a estudar.

Tem muita coisa querendo se mostrar. Peripécias inusitadas que aparecem, envolvem e revolvem. E voltam a envolver. Tem história nova, tem história velha e um calhamaço de páginas em branco.

Tanta coisa. Acho que quando a gente se encontrar, as palavras vão sair a galope, todas eufóricas, falando tudo ao mesmo tempo. Tanta coisa, mas ainda tem tanto. Pra que me adiantar? Acho que quando a gente se encontrar, as palavras vão se esconder, todas emocionadas, sentindo tudo ao mesmo tempo.
*

Estou indo para o hospital. Ela transformou meu primeiro pedido. Na hora certa, Luiza chegou.

Luiza nasceu no dia 29 de março de 2010. Filha da dupla Tati e Mico, pesa 3,110 kg e mede 50 cm. O pai está todo emocionado. Mãe e filha passam bem. Muito bem.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Ch-ch-ch-ch-changes

Quase oito. Não vai dar tempo nem pro café. Banho frio, pular dentro da roupa e rua. Esqueci o iogurte. Peguei. É só chuva de verão. Jurei que eram acordes. São. Buena Vista Social Club? Uau, quase não acreditei. A chuva aumentou. Esqueci o guarda-chuva. Agora é correr pra pegar o ônibus. Atalho? Está cheio. Peguei.

Oito. Pelo menos um café. E aquele banho morno pra acordar. Mas a blusa vai combinar? Só tem natural. Granola e mascavo pra acompanhar. Guardei. Parece que vai ficar nublado, mas não vou me precipitar. Posso ouvir. É o andar do novo morador. Led? Tem bom gosto, gostei. O céu vai abrir. Lotação? A sombrinha só foi passear. Guardei.

Oito e meia. Fome. Hoje vou me fartar. Banho quente, onde estão mesmo aqueles sais? Curto ou comprido, tanto faz. Que o vestido seja alegre pra me inspirar. Acabou o iogurte. Morangos e chantilly. Me esbaldei. Sol tímido. Som alto, escancarado. Bowie? “Ch-ch-ch-ch-changes, turn and face the strange, ch-ch-changes”. Visceral, vibrei. Peguei um táxi. Me esbaldei.

Quase nove. Mas ainda quero me espreguiçar. E depois, aquele banho demorado pra animar, demorei. All Star de guerra pra caminhar? Nada em casa, preciso fazer compras. Eu sei. Sol brilhando. Sem música nas escadas. Epifania, mas mesmo assim me assustei. Era isso o que eu estava esperando? Quando virei, encarei o estranho ao vivo no corredor. É mesmo, hoje o Sol é rei. Colocamos os Ray-Bans. Fomos juntos a pé. Enganei os ponteiros. Eu sei.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Os quatro garotos

Nossa, que clarão. Está tudo embaçado. Acho que exageraram na dose do colírio. Meu primeiro dia aqui e não consigo enxergar nada. Me falaram das brumas da cidade, mas o médico não precisava levar tão a sério.

Imaginei um dia extraordinário, uma chegada emocionante, lugares surpreendentes. Tudo ao avesso. Não consigo sequer ler o endereço do albergue. E agora, vou pra lá ou pra cá? Opa! Aaaaaaaai!

Que trombada. Fomos caindo em sincronia, como peças de um dominó. Parecia cena de filme, foto pra disco. Eu e os quatro garotos estatelados no meio da faixa de segurança.

Esqueci da confusão do meu dia, da aeromoça derrubando limonada no meu olho, do oftalmologista desvairado agigantando minhas pupilas. Só conseguia fazer parte daquela explosão de gargalhadas descompassadas que neutralizavam qualquer tentativa de explicações. Voltei do transe quando um deles conseguiu me levantar enquanto tentava colocar a mochila nas minhas costas.

- Ei, de que história você saiu, garota?
- Desculpem! Dilatei as pupilas, nem sei por onde ando.
- Desculpar? Foi incrível! Vem, a gente te ajuda a atravessar a faixa.

E marchamos em fila. Atravessando ruas, quadras, bairros inteiros. Ora sérios, ora às gargalhadas. Falávamos aos borbotões. Os assuntos surgiam em escala avassaladora. Desatinos pueris, mentiras aceitáveis, alegrias desmedidas.

“Todos os assuntos são permitidos entre íntimos desconhecidos”, murmurou o primeiro da fila. Ele era quase tão suave quanto visceral. Sua gaita delicadamente escrachada nos guiava e dava o tom daquele louco e irreversível passeio.

O segundo era o mais divertido. Tinha um humor peculiar, agridoce. Para os desavisados, até passaria por despretensioso.

O terceiro era romântico, irreverentemente solidário. Dizia enxergar com os pés. E já que eu não conseguia ver quase nada, abandonou os sapatos para enxergar por nós dois.

O quarto era o mais jovem, mas parecia carregar uma tradição milenar. Introspectivo, deixava um tom de mistério no ar. Quando todos pararam abruptamente, foi dele que partiu a profecia: “Temos que levá-la até lá”.

E seguimos por um túnel no meio da cidade. A luz já não me incomodava. Eu estava maravilhada com tudo aquilo. Com tantas coisas para ouvir e falar, não achei importante perguntar se a noite tinha caído ou se não havia iluminação naquele lugar.

Contaram que descobriram aquele túnel por acaso. Gostavam de correr e gritar por aquelas curvas largas e intermináveis. Era completamente abandonado. Nunca viram ninguém entrar ou sair. Mas sempre imaginaram esbarrar em algum andarilho com quem pudessem compartilhar a magia daquele lugar esquecido nos pés da cidade. O momento acontecia. Precisavam comemorar. E eternizar aquele encontro.

As ideias brotavam e eram banidas em poucos segundos. Não podia ser qualquer coisa. Tinha que ser algo perfeito. Que lembrasse o encontro, mas não denunciasse o segredo. Tamanho era o êxtase que apenas o primeiro se deu conta de que chegávamos numa bifurcação. Os outros continuaram caminhando, certos de que eu continuaria em frente. Somente ele, com sua telepatia amplificada, soube que eu seguiria pelo outro lado.

- Leve os meus óculos. São mágicos, vão te mostrar o caminho – sussurrou, tocando o esquivado canto da minha boca.

Um pouco antes de eu sair do túnel, ainda pude ouvir seus gritos e o som da gaita ecoando o pacto de que nosso encontro naquela rua seria eternizado algum dia.

Não sei se os óculos eram mesmo mágicos, se o efeito do colírio estava passando ou se o frisson pelo inesperado toque dos lábios me devolveu a visão. Com a respiração sôfrega, consegui ler o cartaz a alguns metros da saída do túnel. “Show dos Beatles aqui. Imperdível”. Perdi os batimentos cardíacos.

Texto selecionado no 4º Concurso Literário Guemanisse de Minicontos e Haicais.

sábado, 24 de outubro de 2009

O salva-vidas e suas histórias maravilhosas

A crosta de frio sobre a pele parecia visível. O vento doce da primavera ainda estava gelado por esses pagos. A tentação de subir para um vilarejo tropical amornava meus pensamentos. Mas já era tempo de jacarandás. Ah, os jacarandás... E como em todos os anos, essa lembrança inebriou os ponteiros e fez o tempo gritar. O sol cresceu faminto, o vento se rendeu à brisa e a cidade se transformou em feira. Abram alas, o verdadeiro salva-vidas vai passar. É ele, o redentor mundo do livro. Aquece e deliciosamente liberta. Salve-se quem quiser.

Este texto abre as minhas crônicas no livro SALVA-VIDAS, editado pela Nova Prova, com lançamento na Feira do Livro de Porto Alegre. O livro traz divertidas crônicas de 12 alunos da oficina literária do escritor Fabrício Carpinejar. Os meus escritos eu já adiantei aqui no blog... mas lá na Feira vai ter sessão de autógrafos, colegas talentosos, muitas gargalhadas e gente querida por perto!

O quê: sessão de autógrafos do livro SALVA-VIDAS
Quando: 8 de novembro, domingo, às 16h
Onde: Feira do Livro - Memorial do Rio Grande do Sul, Praça da Alfândega

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Esconderijos, vaidades e pirulitos

- Ei, você vai continuar se escondendo atrás de mim?
- Psiu. Fica quieta. Eles já estão chegando.
- Não mesmo. Não quero um irmão medroso. Sai já daí.
- Por favor. Só mais dessa vez.
- Nada disso. A ecografia já vai começar. Vem logo.
- Não vou. Me deixa quietinho aqui. Eles nem vão notar a minha presença.
- Mas que loucura é essa? Tenho cara de esconderijo da insegurança alheia?
- É só por um tempo. Até eu criar coragem de me mostrar.
- Sem chances. Eu ainda nem uso saias e você já quer se esconder atrás da minha barra? Imagina quando estivermos lá fora.
- Psiu. Para de se mexer.
- Não paro. Eu quero mais é me exibir.
- Sim, pra você é muito fácil agir assim. Eles já estavam lhe esperando, estão felizes, fazendo planos.
- Claro, eu não me escondi na primeira ecografia. Que papelão, hein? Do que você tem medo?
- Puxa, tenta se colocar no meu lugar. Eles não me conhecem. Como vou aparecer assim, de surpresa? E se eu não agradar?
- Não exagera. É só agir naturalmente.
- Mas e se eles não gostarem de mim? Se me acharem feio, desengonçado?
- Ai, ai, ai. Inventa outra desculpa. Somos quase iguais. Gêmeos, lembra?
- Mas eu não tenho essa sua singeleza feminina.
- Deixa de ser inseguro. Eles vão lhe adorar.
- Será?
- Claro.
- Não sei não.
- Pensa assim, lá fora você não vai poder se esconder sempre que conhecer alguém. Melhor já ir se acostumando.
- Mas se eu me mostrar, não vai ter volta. E o que eu faço se der errado? Não, melhor esperar mais um pouco.
- Cansei. Quer saber? Tchan... sorria para a nossa primeira foto juntos!
- Sua maluca, para com isso. Eles estão me vendo. E agora?
- Olha lá a cara deles! Estão comemorando!
- Sério?
- Não param de apontar para o seu pirulito.
- Jura? Deixa eu ver.
- Estou dizendo, você agradou muito.
- Puxa, não é que é mesmo.
- Ei, espera aí. Não acredito, nem estão mais me dando bola.
- Hum, acho que eles estão querendo tirar mais fotos de mim. Chega pra lá um pouquinho.
- Hein?
- É, acho que eles estão gostando. Deixa eu mostrar melhor. Quem sabe de outro ângulo.
- O quê? Criei um monstro? Na verdade, acho que não. A história só se repete. Esconderijos, vaidades e pirulitos. Não necessariamente nessa ordem.

Texto selecionado no 4º Concurso Literário Guemanisse de Minicontos e Haicais.

A caneta que se entregou ao verso

Dia de estreia me dá um frisson. É sempre assim. Fico ansiosa, ouriçada. Minha tinta sobe e desce, parece que vai incandescer. Meu verniz fica cintilando, todo se exibindo em polimento. Minha ponta moderna se agiganta, nem lembra da antiga tradição da pena de tinteiro.

Falta pouco. As cortinas do teatro estão se fechando. Depois da estrondosa chuva de aplausos, já posso ouvir o burburinho das pessoas deixando a plateia. Meus escribas anônimos se aproximam. Estão eufóricos, arrebatados pela emoção do espetáculo. Hora de registrar os sentimentos. Hora do meu espetáculo particular.

Já no foyer, me posiciono bem perto da porta de saída. Em cima do livro de presenças, mero coadjuvante, fico toda esguia, oferecida, esperando o primeiro toque.

É de uma mulher. Mais velha. Pelo jeito que me leva, parece ser bem decidida. Tem uma letra toda desenhada, até os erres são cheios de curvas. Letras com serifas. Acho que ela também é artista. E quantas reticências. Quintana adoraria. É, ficou bonito.

Hum, esse é homem. Senti a pegada. Mas que apressado. Se expressa em rabiscos, beira um garrancho. Nem consigo entender o que ele está me fazendo escrever. Acho que não é pra ninguém entender mesmo. Esse não sabe o que dizer, melhor não dizer nada. E não disse. Riscou tudo e foi embora.

Garota descolada cheia de siglas e abreviaturas malucas. Será isso o famigerado internetês? Ah, mas comigo não. Travei a ponta. Pode me balançar, chacoalhar, riscar com força. Não vou macular a língua mãe. Quem sabe um esguicho de tinta no meio da testa não faz a moçoila mudar de ideia? Não deu tempo. Pegou uma caneta emprestada e deixou um “bjuxxx, fui”. Ui.

Mãos macias, muitos anéis. Me acalca com vigor contra o papel. O texto é todo em maiúsculas. As capitulares são imensas, colossais. Alguém quebrou um copo ao seu lado. Não se abalou. Escreve com soberania. Será um rei, uma rainha? Pensando bem, nem sei se é homem ou mulher.

Perfume adocicado. Menino doce, mas acalorado. A mão está suando. Ai, estou quase escorregando! Sua letra puxa toda para a direita. Olha lá, cheio de sonhos a sua espreita. Porque é assim, me disse uma vez um querubim. Letra que puxa pra direita é de quem só pensa no futuro. Letra que puxa pra esquerda, coitado, é de quem está preso no passado. O menino escreveu em versos. E o perfume ficou no papel. Que amado!

Ele parece estar me ouvindo. Me fitou com encanto e me escondeu em seu bolso. Fui raptada, que lindo! Devo gritar por socorro? Ele está fugindo.

Texto selecionado no 4º Concurso Literário Guemanisse de Minicontos e Haicais.

Bem longe dos dias beges

Quem disse que velho gosta de acordar com as galinhas deveria engolir uma galinha inteira pra aprender a ficar de bico fechado. E de quebra levar umas boas bicadas da galinha.

Que pesadelo. Acordar cedo e com esse frio. Era só o que me faltava. E outra, de onde tiraram que velho gosta de frio? Eu não gosto de acordar cedo e não gosto de frio. E não gosto de acordar cedo pra passear no frio. Tudo isso no mesmo dia. E no dia do meu aniversário. Que presente de grego. E pra comemorar 76 anos. Quem comemora data quebrada?

Eu que devia estar com a cabeça quebrada pra aceitar um convite desses. Mas se eu não aceito é porque a vó é isso, a dinda é aquilo. Está bem, está bem. Vou levantar e fazer a alegria da meninada. Mas só de pensar em sair dessa cama quentinha já faz minha dentadura tremer de frio dentro do copo. E se a tremedeira se espalha pelo corpo? Vão achar que estou com Parkinson. Ah, não, isso não. Daí a tragédia grega do dia vai virar a novela mexicana do ano.

Eles acham que velho está sempre em vias de ficar doente. Não posso ter a minha artritezinha em paz, que já querem me levar pro médico. Mal tenho uma rinitezinha básica e já querem me entupir de remédio. Não posso comer fios de ovos, que já vem o sermão do colesterol. Se eu tiver algo mais grave, estou ferrada. Não, melhor sair da cama cheia de energia e me fantasiar de idoso pra passear com a família.

Sim, modelito de idoso pra hoje. Porque se eu colocar o meu jeans confortável, minha bolsa atravessada e meu All Star velho de guerra, vão começar com o papo de que estou gagá e falar comigo como se eu fosse criança: “Ai, vó, que roupa é essa? Abra os presentes e escolha uma roupa melhor”.

Bege. Blusa bege, saia bege, xale bege. Já estou vendo a cena. E também a minha cara de pastel de vento com tanta coisa morna na minha frente. Depois dizem que fiquei ranzinza. Mas cadê os CDs, os livros, os ingressos para shows? Eu não desbotei. Continuo a mesma. Envelheci o corpo, não o cérebro.

Tu-tuu-tu-tuu. Maldita soneca do despertador. Não tem jeito, vou ter mesmo que sair da cama. E providenciar um aparato salva-vidas pra me resgatar do bege do dia. Rock’n’roll camuflado no mp3, chocolates escondidos na bolsa e aquela canga floreada pra estender na grama. Isso. De mansinho, dou um jeito de sumir e transgredir o protocolo. E quem sabe até conhecer novas gentes por lá.

Esqueço a preguiça embaixo do cobertor. Vou abrindo as persianas e a rua ainda mansa começa a entrar. O mosaico despretensioso brinda o início de mais um tanto de vida. Meu reflexo no vidro da janela denuncia meu verdadeiro presente de aniversário: minha alma continua viva, colorida, bem longe dos dias beges.

Amor de cão

Todas as noites no mesmo horário. Aquele cão noctívago havia engolido um despertador que o lembrava o momento exato de sua serenata particular. O local? A minha janela.

Na primeira noite, achei bonito, até poético. Era um ser passional demonstrando seu sentimento, pedindo a minha atenção. Seu uivo era visceral, transbordava de seu corpo esguio, imponente.

Na segunda noite, meu lado maternal aflorou. Pensei em adotá-lo, colocá-lo para dormir depois de uma tigela amorosa de leite. Adormeci com a ideia de livrar aquele doce e carente animalzinho da solidão.

A terceira noite veio acompanhada da dúvida: seria este bicho portador de alguma grave doença ou estaria possuído por algum fantasma canino? Como poderia ser tão temperamental?

Na quarta noite, minhas olheiras eram visíveis, minha raiva estava insuportável e um ódio pelos criadores das leis ambientais tomava proporções avassaladoras dentro de mim. Aquele cachorro insuportável estava me deixando transtornada com sua angústia desafinada.

Não houve despertadores na quinta noite. Fechei as janelas, desliguei o celular e o cheiro da paz amornou a madrugada. Na rua, o frasco do veneno redentor já estava vazio. O corpo ainda quente do cão dava sinais de adeus ao amor platônico da janela.

Deixa estar, deixa estar

Dizem que os sonhos vão se apagando da lembrança momentos depois que acordamos. E que é melhor anotar o que parecer importante, antes que tudo se dissipe. É o que dizem. E quem sou eu para duvidar.

Eu me lembro muito bem. Naquela noite, além de cansada, eu estava amortecida por todo aquele mais do mesmo. Muitos planos coloridos no coração, mas apenas umas poucas notas fujonas na carteira.

Já aninhada na cama, roubava da poesia dos Beatles o libertador brilho para a alma. A música macia, quase uma carícia, parecia mandar um sinal… “Let it be, let it be, there will be an answer, let it be”. Antes de ser vencida pelo sono, realizei: haveria uma resposta. E houve. Na verdade, seis. As seis dezenas da Mega-Sena.

Acordei de supetão, no meio da noite. Os números gritavam no meu ouvido, pareciam ecos de um sino celestial. Acho que vinham de alguma igreja de Liverpool. Meio dormindo, meio acordada, tratei de levantar. Ainda aos tropeços, fui para a sala, peguei papel e lápis e registrei a minha dádiva. Eu estava imune ao esquecimento que desacredita os sonhadores – os números estavam anotados e a salvo.

Depois da euforia, exausta, me derramei no sofá. Quando o despertador tocou, levantei toda mole, curtindo a intencional falta de pressa. O meu estado era de graça. Sim, eu lembrava do sonho. Não lembrava dos números, é verdade, mas ainda podia ouvir os sinos. Benditos sejam os sonhos! E todos os que ainda acreditam neles. Era só pegar o papel, ir para lotérica e começar a festejar.

Foi aí que o martírio começou. A salvo, mas onde? Cada centímetro do chão da sala foi vasculhado, cada fresta entre os móveis foi examinada. Procurei em todos os bolsos, potes e gavetas. Nada. O sonho se transformava em pesadelo: eu havia perdido o papel.

Não. Não pensem que foi um delírio, um desvario da minha cabeça. Que tudo não passou de uma inocente quimera. As provas cabais estavam lá: o lápis estava em cima da mesa; o bloco, meio amassado pelo calor da hora, também estava lá, com uma folha rasgada mela metade; os CDs e livros, por conta dos tropeços, estavam todos espalhados pelo chão. Fato. Realmente aconteceu.

Até hoje, todos os dias, aproveito a luminosidade escancarada do sol e volto a procurar o papel desertor pela sala. Até hoje, todas as noites, me envolvo na energia da música e volto a atrair os Fab Four para a sedução do quarto.

Adoráveis e maquiavélicas

Por que algumas crianças não têm trava na língua? Perguntam o que querem e em qualquer situação. Suas interrogações exclamadas ruborizam os envolvidos, melindram os pais e precedem a esfarrapada justificativa de que são apenas crianças, ora, ora.

Pode até ser. Algumas crianças parecem ser mesmo inocentes, a pergunta sai naturalmente, sem grandes pretensões. Outras, mais sapecas, até sabem o alvoroço que vão causar, mas a curiosidade supera o atrevimento. Mas há também aquelas que parecem fazer pelo simples prazer de ver o circo pegar fogo. Aparentemente adoráveis, são sarcásticas, beiram o maquiavelismo.

Essas facetas podem pertencer a uma mesma criança. Como ter certeza da intenção? Difícil tarefa. Assim como nos adultos, pode ser muito tênue o momento em que termina a ingenuidade e começa a malícia.

Há alguns anos, numa roda de amigas, uma das garotas se queixava do comportamento do seu alvo ao mesmo tempo em que criava desculpas para o sumiço do cara. No meio da tagarelice, lancei a consagrada pergunta: “Hum, será que ele está mesmo a fim de você?”. O assunto já era manjado, ia gerar boas risadas entre as meninas. Que nada. Fiquei boquiaberta com a reação exagerada: a guria saiu balançando as tranças e não falou mais comigo. Nunca entendi tamanho disparate.

Outro dia, numa reunião de trabalho, um diretor discursava freneticamente sobre mudanças, novo rumos, coisa e tal. Estava entusiasmado, mas sequer conseguia dizer se o ovo vinha primeiro do que a galinha. Pensei duas, três, quatro vezes antes de abrir a boca. Não deu. Quando vi, já estava perguntando o que não devia. Dias depois, fui promovida ao mercado de trabalho. Fiquei perplexa com a reação arbitrária. Eu começava a entender a força das minhas palavras.

Ninguém quer gerar uma saia-justa gratuita, mas cá entre nós, às vezes escapa, né? Foi assim num desses cursos culturais de verão. Um monte de gente diferente, com ideias diferentes. Oba, respirar novidade! Não foi bem assim. Um dos colegas monopolizou a palavra, não dava espaço pra ninguém. Lia todas as revistas, conhecia todos os escritores, dava exemplos pra tudo. Falava até mais do que o professor. Era o tal. Era o chato.

No intervalo, o sabe-tudo promoveu uma discussão sobre o significado de algumas palavras. Eu já estava dando marcha à ré, mas fui contida. Epifania. Num estalo de lucidez, resolvi entrar com vontade na brincadeira. Ericei a pestana e depois de um sorrisinho sapeca, perguntei o que significava sobrançaria. Dessa vez, entendi bem a reação estarrecida do meu interlocutor. Fingindo não saber a resposta, o moçoilo arregalou os olhos e começou a gaguejar.

O professor, com a vasta experiência de sua cabeleira branca, ganhou ares de menino e me lançou uma piscadela marota. Com um simulado tom de indiferença, respondeu: “Soberba, meu filho. Significa soberba”.

Aluna e professor. As duas adoráveis crianças maquiavélicas se reconheceram naquele momento.

6 de outubro

Nasci. Renasci.
E pra brindar ao meu aniversário... nasce o blog também. Eba!
Vamos nos divertir! Essa festa não tem data pra acabar.