terça-feira, 6 de outubro de 2009

Esconderijos, vaidades e pirulitos

- Ei, você vai continuar se escondendo atrás de mim?
- Psiu. Fica quieta. Eles já estão chegando.
- Não mesmo. Não quero um irmão medroso. Sai já daí.
- Por favor. Só mais dessa vez.
- Nada disso. A ecografia já vai começar. Vem logo.
- Não vou. Me deixa quietinho aqui. Eles nem vão notar a minha presença.
- Mas que loucura é essa? Tenho cara de esconderijo da insegurança alheia?
- É só por um tempo. Até eu criar coragem de me mostrar.
- Sem chances. Eu ainda nem uso saias e você já quer se esconder atrás da minha barra? Imagina quando estivermos lá fora.
- Psiu. Para de se mexer.
- Não paro. Eu quero mais é me exibir.
- Sim, pra você é muito fácil agir assim. Eles já estavam lhe esperando, estão felizes, fazendo planos.
- Claro, eu não me escondi na primeira ecografia. Que papelão, hein? Do que você tem medo?
- Puxa, tenta se colocar no meu lugar. Eles não me conhecem. Como vou aparecer assim, de surpresa? E se eu não agradar?
- Não exagera. É só agir naturalmente.
- Mas e se eles não gostarem de mim? Se me acharem feio, desengonçado?
- Ai, ai, ai. Inventa outra desculpa. Somos quase iguais. Gêmeos, lembra?
- Mas eu não tenho essa sua singeleza feminina.
- Deixa de ser inseguro. Eles vão lhe adorar.
- Será?
- Claro.
- Não sei não.
- Pensa assim, lá fora você não vai poder se esconder sempre que conhecer alguém. Melhor já ir se acostumando.
- Mas se eu me mostrar, não vai ter volta. E o que eu faço se der errado? Não, melhor esperar mais um pouco.
- Cansei. Quer saber? Tchan... sorria para a nossa primeira foto juntos!
- Sua maluca, para com isso. Eles estão me vendo. E agora?
- Olha lá a cara deles! Estão comemorando!
- Sério?
- Não param de apontar para o seu pirulito.
- Jura? Deixa eu ver.
- Estou dizendo, você agradou muito.
- Puxa, não é que é mesmo.
- Ei, espera aí. Não acredito, nem estão mais me dando bola.
- Hum, acho que eles estão querendo tirar mais fotos de mim. Chega pra lá um pouquinho.
- Hein?
- É, acho que eles estão gostando. Deixa eu mostrar melhor. Quem sabe de outro ângulo.
- O quê? Criei um monstro? Na verdade, acho que não. A história só se repete. Esconderijos, vaidades e pirulitos. Não necessariamente nessa ordem.

Texto selecionado no 4º Concurso Literário Guemanisse de Minicontos e Haicais.

15 comentários:

  1. oi
    que elgal
    fiquei muito feliz
    boa sorte
    beijo
    Lu

    ResponderExcluir
  2. Que texto fofo!
    É quase um roteiro pronto pra ser filmado um mini-metragem.

    Continue postando!!

    ResponderExcluir
  3. Marguita, querida
    Nem precisas mais de incentivo, estás prontíssima. Continue assim pra alegria geral.
    Beijão
    Doris

    ResponderExcluir
  4. Marquinha!! Amei!! Que legal guria, tu sempre foi uma maquina agora ninguem te segura. Parabens!!
    Nanda ;)

    ResponderExcluir
  5. oi dinda adorei o texto dos gemios que eu nao lembro o nome estou lopuca para ler o da caneta e os outros tambem beijocas sabor pipoca

    ResponderExcluir
  6. AMEI demaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiis! Só isso que tenho a dizer!

    ResponderExcluir
  7. Quem olha com cuidado para o nariz da frota atual de A340 da Iberia vê um detalhe inusitado. Clara, Teresa, Maria, Rosalia... cada aeronave carrega o nome de uma espanhola de renome.

    Mais umas duas como a do pirulito e eu convenço a Tam a batizar um avião contigo. Dos grandes, pra caber o Dambrowski :-)

    ResponderExcluir
  8. Estou toda faceira!
    O Verissimo elogiou esse texto!
    :)

    ResponderExcluir
  9. Marga,adorei teus textos. São todos saborosos. Este, então... Descobriste à genese de grandes problemas da humanidade. Faltou, apenas,incluir a "inveja" no título, para também contemplar as sem-pirulitos. bj. Fábio

    ResponderExcluir
  10. Linda, não sabia desta tua veia escritora!

    Muito sucesso pra ti!

    Um beijo!

    ResponderExcluir
  11. Um mergulho na barriga! Só quem tem a veia literária em ebulição consegue produzir um texto desta qualidade, Marga. Um diálogo delicioso, que fotografa descaradamente a guerra das vaidades, antes mesmo dela nascer.
    Surpreendente! O texto e o teu talento!
    Beijo!

    ResponderExcluir
  12. Marga, esse uso delicioso e estratégico da linguagem, ensina pra mim?

    E isso do Veríssimo, me conta, vai!

    Mil beijos

    ResponderExcluir
  13. Marga querida. Não adianta, mulher tem um chip e homem tem outro. Desde o útero, como você bem pontuou nesse insólito e divertido diálogo. Que delícia! Até fiquei imaginando a continuação da história, com eles do lado de fora da barriga.
    Parabéns mesmo.
    Beijo grande.
    Silmara Franco
    www.fiodameada.wordpress.com

    ResponderExcluir
  14. Fez a primeira ecografia e nada de dois. Eu disse que só ia aparecer na segunda.

    Luiza chegou e sem pirulitos!
    Antes mesmo de nascer já distribuiu inspiração.

    ResponderExcluir